Bruno Faro

Cultura, o parasita mental

Muitos estudiosos têm apontado a cultura como um parasita que infecta a mente de humanos hospedeiros involuntários. O autor Yuval Harari debate muito bem o tema no livro “Sapiens, uma breve história da humanidade”. Fica a dica de leitura.

Os seres vivos que parasitam outros, como os vírus e alguns vermes, vivem dentro dos hospedeiros. Eles se multiplicam, indo de um corpo a outro, provocando mal estar, doenças e até mesmo a morte. O importante é que o hospedeiro viva suficientemente para transmitir o parasita.

As ideias culturais seguem o mesmo ciclo. Elas vem de dentro de nossas mentes, são passadas de um a outro, repetidas infinitamente, contaminando populações inteiras. Muitas pessoas inclusive morrem por estas ideias. O humano morre, mas a ideia se espalha. Ciclo concluído.

A evolução cultural se baseia na replicação de unidades de informação chamada “memes” (aham, é daí que vem o termo) e pode ser chamada de memética. O meme pode ser intencional ou acidentalmente transmitido, mas como ele é fabricado na mente de alguém, é ilusão. Contudo, se o humano seguinte o aceita, ele se torna hospedeiro e contamina outros com a ilusão que começa a ter cara de verdade. Quanto mais contaminados, mais difícil conter o avanço e mais crível o meme se torna.

Um exemplo atual é a “corrida armamentista”. Esse padrão de comportamento se espalha como vírus. Um país se arma, o outro também. Como dois pavões disputando uma fêmea. No fim, estão tão armados que temem o conflito e agem de forma política. Gastaram bilhões em armas ao invés de educação e saúde.

O ponto preocupante é que a maioria se deixa infectar sem ao menos questionar. Aceitamos certas “verdades” culturais e repassamos como infalíveis.

Isso limita nossa visão e nossa capacidade de enxergar com novos olhos, com o olhar de outros de culturas bem distintas. O mundo caminha para uma cultura cada vez mais mista e global. Limitar-se à sua cultura é suicídio criativo. Precisamos atravessar as fronteiras e avaliar todas elas, até porque a criatividade não floresce na aceitação, mas sim do questionamento constante.